Ser um paladino é acima de tudo servir. Mas servir a quem? A um Deus, um tolo superficial diria, mas é muito mais que isso. A servidão de um paladino não é abaixar a cabeça e seguir como um carneiro pelo mundo, ou seguir como um cão devorando todos os que estão contra sua crença. É a servidão à vida e ao amor que ela gera. Pode parecer piegas, mas é a verdade, um paladino irá defender a verdade, a vida, a honra e principalmente o amor. E certamente por isso que está escrito nos portão do Templo de Arian “ABDICAR PARA SALVAR”. E todos os dias os cadetes que pretendem ser paladinos do Deus Solar entram em forma de frente para essa frase, e a repetem em voz alta. Eles abdicam de sua vida em prol da Ordem de Arian, e principalmente em prol dos Cinco Reinos Unidos.
Nesta manhã, no meio dos cadetes, está Arthur, um jovem de 18 anos, prestes a terminar sua formação. Quando tinha doze anos ele foi trazido por seu pai, Duque de Arge, e seu irmão mais velho, herdeiro natural das terras de seu pai. E por vontade própria ou não, Arthur assumiu seu destino e iniciou seu treinamento junto aos guerreiros sagrados. Ser um membro da Ordem de Arian é uma honra sem tamanho, respeitado e bem recebido em qualquer casa dos Cinco Reinos. Das antigas ordens somente três restaram, e com certeza o templo que o jovem estava era o mais respeitado e também o mais rico. Todos doam quantias de dinheiro aos sacerdotes de Árian, e todos querem a proteção de seus honrados paladinos.
Na frente da tropa está o Capitão Tolakh, um anão, responsável pela parte final da formação dos cadetes. E essa é outra característica da Ordem de Árian, muitos dos seus membros mais antigos são anões vindos das geladas montanhas de Neve Eterna. E ninguém, além dos anões sabem o por que disso, afinal, sua cidade Urkh, fica dentro das montanhas e dentro de montanhas não há Sol. Mas a vantagem é que as melhores armas de todos os reinos são forjadas pelos anões, e eles doam centenas delas para a Ordem.
- Com a graça de Árian, que sejamos dignos de sua luz, vocês estão próximos do fim de seu treinamento, e o início de sua jornada. Aqui hoje contemplamos o Sol nascer, e relembramos nosso lema. Nesses dias que faltam, vocês passarão por provas que a milênios são feitas. E os que por ela passarem serão feitos paladinos, e partirão para os Reinos que irão proteger. Lembra-vos que muitos ficaram pelo caminho e nesses poucos dias mais ficarão. O DIA QUE MINHA FÉ ACABAR...
- O SOL IRÁ APAGAR – era a resposta dos cadetes em forma, vestidos com túnicas impecavelmente brancas. Daquele ponto foram para o café da manhã, que era farto, pão de centeio, cerveja e bolos.
O salão era grande, com uma enorme mesa ao centro. Os cadetes mais novos sentam-se longe do Sumo Sacerdode, e os mais velhos, como Arthur sentam-se próximos. Ele estava perdido em seus pensamentos, lembrando tudo que havia treinado, e o tempo que passou ali dentro, nunca conheceu o amor de uma mulher, e nunca conheceria, afinal agora ele é um paladino, e nunca faltaria com a verdade ou se embriagaria. Não teria riquezas a não ser sua montaria e armas e armadura, e iria para um forte onde defenderia algum dos Cinco Reinos. A saudade de suas irmãs mais novas já não existia mais, dos sentimentos que nutria por sua família só sobrou um rancor por seu irmão, que antes o humilhava nos treinos de duelo na frente de seu pai. Mas agora se eles se encontrassem seria diferente. Pena que ele não poderia derramar sangue inocente.
- Arthur... Arthur... Acorda!
Ele levantou os olhos e viu Cassio, um dos seus dez companheiros, um rapaz moreno escuro, vindo do Reino de Doccar. Era o melhor cavaleiro de seus amigos, também pudera, Doccar é o Reino dos Cavalos, onde as melhores montadas são criadas e vendidas para todo o reino. Seu pai era um conde e doou cinquenta cavalos para Ordem.
- Que foi?
- Parece que você se perdeu sonhando acordado.
- E você me interrompeu só para fazer essa observação? Que perceptivo!
- Haha! Não é isso irmão, eu estou nervoso com as provas. Elas iniciarão em breve, dizem que enfrentamos nossos piores medos nessas provas. E se você ainda não percebeu, éramos cinquenta cadetes e hoje somos vinte, quantos mais irão cair?
- Sabe o Micael, o da cozinha, ele disse que na última vez foram somente quatro que terminaram as provas. O que elas são eu não sei, mas a festa final envolve um torneio contra os melhores de todos os reinos, e esse é o meu objetivo.
- Sua vingança ainda vai te derrubar, irmão.
- Vocês são meus irmãos, bem dito...
Depois do café há o treino de duelos no pátio, e é algo maravilhoso de se ver, os mais velhos duelando já com espadas de verdade enquanto os novatos iniciam os primeiros movimentos com armas de madeira.
O anão Tholak cuida da formação de seus vinte:
- Agora lutarão contra dois!
Arthur parou de frente a Durakh, o único anão de sua turma, que empunhava uma lança meio metro maior que ele, e seu companheiro e confidente Cassio, ele tinha de derrubar os dois. E Durakh era difícil.
O anão inicia atacando, uma estocada longa, e Cassio ataca pelo flanco esquerdo. A lança foi detida pelo escudo as espadas se chocaram. A maior vantagem de Artrhur é o fato de ser canhoto. Isso pode parecer brincadeira, mas para um oponente destro é como lutar contra uma imagem no espelho.
Durakh gira a lança sobre sua cabeça e bate com a lateral dela contra o escudo, isso distrai Arthur e quase é tocado pela espada de Cassio. A agilidade do anão era impressionante, e ele percebendo que o barulho do escudo distraía seu oponente, inicia uma série de ataques seguidos. Cassio aproveita a ocasião ataca seu amigo com golpes em variadas alturas.
Arthur começa a perceber sua desvantagem, e tenta a todo custo se defender, o ataque era impossível. Então ele é tomado pela força de Árian, uma onda de energia toma seu corpo, e seus olhos se tornam amarelados, isso é que um paladino busca, o poder de invocar a força de Deus, e isso para Arthur estava a cada dia se tornando mais fácil. Com sua força aumentada, ele ataca Cassio utilizando o punho da espada, derrubando o oponente sem ar no chão. Durakh percebendo que o poder que enfrentava, salta para retaguarda e se concentra no chão sobre seus pés. União com o solo, uma habilidade natural de um anão, e isso o salvou de ser derrubado por um forte empurrão realizado com o escudo, que racha junto a ponta da lança, os estilhaços das armas voam pelos ares. Agora o anão jamais seria derrubado, seus pés estavam sumidos no chão, e com um movimento com a lança quebrada arremessa um punhado de terra pedregosa em cima de seu oponente.
Arthur defende e seu escudo rachado termina de se quebrar. Se ele não estivesse tomado pela força de Arian teria quebrado o braço. Uma série de ataques e defesas se sucede, e o anão se aproveita de sua habilidade de controle da terra. E a luta teria terminado mal se não houvesse o grito: - EM FORMAÇÃO!!!!
Tholak pôs seus alunos em linha, Cassio se levantou com um pouco de dificuldade, e aos poucos a adrenalina foi baixando e os alunos se acalmaram. Arthur estava um pouco tonto, Durakh respirava ofegante, ambos sobre o efeito colateral do poder que utilizaram.
- Parece que alguns de vocês querem se matar, ainda bem que em pouco tempo vocês estarão passando pela última fase da formação de vocês! Agora todos vão se lavar e descansar, essa noite vai ser longa.
O resto do dia demorou muito para passar, e pela primeira vez nenhum dos instrutores estava por perto, eles estavam preparando a grande noite. E isso fazia o dia passar muito arrastado. Dentro dos alojamentos, os três que antes lutavam agora conversavam amigavelmente. E não poderia ser outro assunto se não o que ocorreria durante a noite, e eles sentados e suas camas, conversavam apreensivos.
- Eu não sei direito o que ocorre, sei que iremos receber a arma que usaremos para todo o sempre, e que quando terminarmos haverá o grande torneio.
- Nenhum paladino anão retorna para a Cidade de Pedra... Passamos a servir os homens... – A voz do anão parecia uma trovoada.
- Para que proteger um reino que ninguém sabe onde fica? A terra dos cavalos não recebe um paladino a anos. O último morreu de velho quando eu era criança.
- Vocês estão de brincadeira!? Essa é a maior noite de nossas vidas e vocês ficam se perguntando se tem ou não guerreiros sagrados em suas casas. Eu estou a dias dormindo cada vez menos. O que será que vai ocorrer?
- Fica calmo Arthur, tenho certeza que ninguém vai nos matar. O negócio é tentar manter a calma. Eu não vou ficar me corroendo. E o que eu estou vendo é alguém mais preocupado com o dia do torneio do que as provas que irá passar.
- Nós, anões, encaramos esses sentimentos diferentes, para nós é um desafio a ser vencido, é como abrir uma pedreira.
Com certeza a voz do anão não combinava com seu tamanho, mas combinava com sua barba e sua força física. E a conversa se estendeu e a noite foi entrando sem que ninguém percebesse. Os outros cadetes se acalmavam como podiam, lendo, correndo, fazendo exercícios ou qualquer coisa que não os fizesse pensar no que passariam.
A noite chegou. Alguns mais calmos, como Cassio, já dormiam em suas camas. Mas a grande maioria esperava ansioso por algum movimento. Eles não podiam sair de seus alojamentos, e isso os deixava mais loucos.
Foi quando entrou Tholak, acompanhado de Zenis, Felipe, Angus e Tavian, todos instrutores dos cadetes, e todos vestidos com a reluzente armadura dourada, e somente o anão carregava uma lança.
- EM FORMAÇÃO!!!
A voz do instrutor anão ribombou como um trovão por todo o alojamento, os cadetes pularam e entraram em forma na frente de suas camas. A ansiedade estava chegando ao ápice, o coração parecia que ia sair pela boca.
- Vocês tem cinco minutos para estarem em frente ao templo principal, vestidos com o traje branco. E aguardem em silêncio e em forma! Essa noite nós separaremos os verdadeiros escolhidos de Arian.
Os instrutores viram as costas deixando a imagem de suas capas brancas de bordas douradas. Os cadetes se vestem e correndo para chegarem logo a frente do templo. E agora eles se puseram em silêncio completo. Isso porque não podem ouvir pensamentos.
Após uma eternidade de minutos. Tholak se apresenta nas suntuosas portas claras do templo. E mandou todos entrarem. Lá um homem de cabelos e barbas grisalhas, também vestido com a sua armadura reluzente em dourado claro. Era Mitra, o mais antigo paladino vivo, e chefe da Ordem. Todos os instrutores dispostos ao redor da nave central. Todos com suas espadas, ou lanças. E Mitra bem abaixo do altar, abaixo do disco solar, todo feito em ouro, perfeitamente polido, e incrivelmente a luz dele ofuscava de todas as velas que foram colocadas em volta.
Essa imagem impressiona a vista de todos, que no centro da nave escutam as palavras na rouca voz de Mitra.
- Essa noite será para sempre lembrada. Tudo que passarem em suas vidas, essa noite será uma prévia. Para alguns talvez ela seja um horror tremendo e para outros talvez seja uma alegria sem comparação. A jornada dessa noite é única e pessoal, pois para encontrar a luz é necessário antes vencer as trevas. Depois dessa noite irão amar somente o reino, e toda a existência será sua paixão. Não terão mulheres nem filhos, e morrerão servindo aos Cinco Reinos, e lutarão contra as trevas e combaterão o Deus Sombrio, o Senhor do Abismo e todos os seus servos. Protegerão os reinos alheios como se fossem os seus.
- Fiquem nessa nave, e um a um serão chamados a entrarem na jornada das trevas, ninguém lhe falará o que fazer, o Sol que brilha em vocês é que vais vos guiar. E que nunca lhes falte a Luz, principalmente hoje!
Um a um eles são chamados, Dereck... Tomas... Felipe... Cassio... e um a um saem do templo sem nenhuma palavra a ser dita.
Duvalik... Pedro... Arthur...
E ele se levanta, dom sua cabeça pesando, se dirigiu `a porta, foi recepcionado por Felipe, e ao atravessar o portal puseram um saco em sua cabeça, e violentamente o arrastaram por um caminho que ele desconhecia. Pensou em gritar, lutar, mas acabou aceitando o seu destino. E quieto retiraram o saco de sua cabeça. Seus instrutores estavam lá, nenhuma palavra era dita, eles estavam em oração. E a sua frente a entrada de uma caverna, iluminada somente por uma tocha. Ele sem pensar entrou, esperou seus olhos se adaptarem, viu a parca iluminação tocando as paredes úmidas do que parecia ser um corredor sem fim. A trevas, a escuridão total o esperava bem a frente, e ele sendo aos poucos tomado pelo medo foi seguindo em frente. Ele não tinha nenhuma arma, nada. Queria muito uma espada.
Continuou seguindo em frente, o túnel não tinha bifurcações, pelo menos ele não tateava nenhuma. E indo em frente ele vê uma fraca luz prateada, mira sua direção e se depara com uma imensa floresta de árvores negras retorcidas, pelo pouco que via a floresta cresceu dentro da caverna, e a pouca luz que via vinha do centro da floresta.
Nenhum som o acompanhou até a luz, cruzou espinhos negros, perdeu parte de sua roupa branca, que agora já assumia um tom marrom. Chegou até a luz que vinha de um altar redondo, feito de uma pedra iluminada por uma luz lunar que vinha do alto. Viu que sobre o altar havia uma espada longa, com a lâmina tão bem polida que parecia um espelho, o punho era dourado com o símbolo de sua ordem.
Seria tão fácil? Era só pegar a espada e ir embora? Olhou para trás e percebeu que não sabia mais por onde veio, a mata era toda idêntica, e aquela clareira redonda era a única coisa que destoava. Quando finalmente decide pegar a espada escuta duas vozes femininas.
- Arthur, Arthur... Não seja tão apressado.
- Não há necessidade de desespero, antes terá de nos provar...
- Terá de ver se somos realmente suas...
- Sentir pela primeira e última vez os prazeres desse mundo.
Desesperado ele girava o corpo em busca das vozes que lhe chamavam. E somente o tom delas era carregado de uma lascívia incontestável.
E vindas da escuridão, duas figuras femininas, por de trás do altar. A da esquerda era morena, com os fartos seios a mostra, e suas pernas tampadas por uma saia negra. Os cabelos longos esvoaçavam e suas curvas eram maravilhosas. O seu andar fazia seus seios balançarem hipnoticamente.
A que vinha da direita era de pele alva como neve, tinha cabelo loiro muito liso, parecia molhado de tão escorrido, seios pequenos e belos, não tinha curvas tão generosas, era da magreza de uma adolescente, mas era linda e carregada de luxúria.
- Venha nos provar Arthur...
- Prove que é digno de ser um campeão...
- Venha provar nosso amor...
E se aproximaram o toque delas era como um vulcão, o toque dos seios delas era como chegar aos céus. Ele não pensa em nada, deixa seu corpo o guiar, beija a morena e beija a loira. Num rompante de luz ele se lembra de seus objetivos, se lembra de quem é, e de tudo que passou, e com raiva empurra as duas, sobe o altar, empunha a espada e se vira para as suas tentações.
- Quem são vocês, eu sou Arthur, um Paladino de Arian, e não terei outro amor se não os Cinco Reinos! Exijo que me digam seus nomes.
- Arthur... Desperdiça nosso amor?
- Renega nossos corpos e tudo que podemos ter?
- Repudio vocês! E me digam quem são! – a cabeça do jovem fervilhava, com elas estão ali, se mulheres não são permitidas?
- Eu sou o rigor! Mas pode me chamar de Vingança – a morena se transformou sua metade inferior em uma serpente negra, sua pele virou como a de uma cobra, seus dentes cresceram pontiagudos e suas orelhas sumiram.
- Eu sou a compaixão! Mas pode me chamar de Soberba – E essa se transformou em um lobo feroz, e se pôs a rosnar e babar.
Aquilo era impressionante para Arthur, as mulheres que beijara agora eram suas algozes, uma hidra e um warg! E ambas não eram amigáveis com ele. O que era belo deu lugar a selvageria.
O warg atacou primeiro, saltou com toda sua ira contra o jovem, e ele só pode girar sua espada contra ele, o peso do ataque lançou-o para o chão, e ele não sabia o que doía mais, a pedra que ele bateu no chão ou a garra do warg que o cortou no ombro direito. Levantou antes que outro ataque viesse, porém não percebeu a hidra que o golpeou com sua calda de serpente, fazendo seu corpo tremer e cair novamente, para sua sorte não largou a espada. Rolou pelo chão de folhas e pedras e levantou a tempo de se esquivar de mais um ataque feroz do warg.
A hidra calculava piedosamente todos os ataques, esperava a investida selvagem do lobo gigante e fazia o melhor golpe. Isso estava minando Arthur, a força dele estava se esvaindo, e seus ataques eram cegos e fracos, a espada pesava em sua mão.
Foi quando ele sentiu de novo, a energia cresceu dentro dele, seus olhos ficaram amarelos mas não foi só isso, a espada também ficou toda amarela. Aquela é sua espada! Ela ira acompanha-lo por toda sua vida e além dela. A energia o tomou. E quando o warg o atacou com sua mordida ele pensou, e esquivou para cima da hidra e antes que ela terminasse mais um ataque com sua cauda ele a cortou, e acompanhando giro a espada entrou pela costela esquerda até atingir o coração. O cheiro de carne queimada entrou pelas narinas de Arthur, deixando ele tonto.
Antes de sacar a espada ele sentiu a presença do warg atrás dele, tombou com a garra em suas costas. Ele novamente rolou, sentiu sangue quente em sua boca. Rolou novamente e não pode pegar a espada, havia um warg entre eles. O lobo gigante atacou em linha reta ferozmente, Arthur pulou para o lado esquerdo e para frente, seus olhos brilharam mais, alcançou a espada, e seu brilho tornou-se mais amarelo, girou o corpo cortando o maxilar da besta de baixo para cima. Isso tornou a fera mais agressiva, mas deu tempo de Arthur atacar novamente, girando a espada sobre a cabeça decepou uma das patas, a besta cai e o jovem guerreiro a golpeia inúmeras vezes, todas de cima para baixo, até que a cabeça dela se torne somente um monte vermelho.
Ele viu o cenário se iluminar, e pode perceber que estava coberto de sangue, todo coberto. Ficou enjoado, mas pode ver uma trilha e pesadamente caminhou arrastando a espada. O caminho era sinuoso, pelo menos era isso que ele acreditava, estava ferido sangrando, e ainda havia o efeito colateral de invocar a força de Arian, e cada passada era um peso a mais que ele arrastava. A trilha terminava em um lago, e sem pensar Arthur entrou e se banhou nas águas e durante um tempo ele desmaiou. O sangue havia sido lavado, e suas feridas melhoraram um pouco, o suficiente para ele poder caminhar pela borda do lago, atravessa-lo e ver uma saída da caverna, por onde pesadamente passou.
Foi recebido pelos seus companheiros que passaram por seus testes, uns feridos outros não, mas todos com suas armas e alegres por serem mais um e terem passado a provação. Procurou por Cassio, não o achou, a preocupação iniciou, ele sentou com seus companheiros e esperou seu amigo.
O tempo passa e mais novos paladinos se reunem, mas nada de Cassio, outros também não voltaram, mas era seu companheiro que afligia o coração. Fora Duvalik, agora portando uma lança branca, que se aproximou mancando e pôs a mão no ombro de seu camarada.
- Já era para ele ter chegado irmão. Ele foi antes, e até agora não voltou, temos de entender se ele não sobreviveu.
- Eu não posso aceitar, ele é melhor do que nós dois, mais calmo, com mais fé. Ele têm de ter sobrevivido.
- Ele vai continuar na Ordem, só não vai ser um paladino. Vai poder ser da estrabaria ou outro cargo. Tilak é cozinheiro e Bobak é armeiro. Têm lugar para tomo mundo Arthur. Temos que nos precaver sobre isso.
- O seu foi muito difícil?
- Muito mais do que eu pensei.
Os dois não conversavam sobre o que exatamente aconteceu, um paladino nunca contaria isso. Mas eles viam um no outro a expressão de quem venceu seus demônios interiores, e o pior, essa era somente a primeira batalha.
A noite acabou, o Sol nasceu, e Cassio e mais alguns não retornaram da caverna, eles iriam assumir outras tarefas dentro da Ordem, mas nunca seriam paladinos, e se fossem para outras terras, nunca pegariam em uma espada, ou lança, eles estariam sempre servindo os que servem. Não que isso fosse ruim, mas não vencer seu desafio era motivo de vergonha entre os membros da Ordem, sempre seriam julgados, tratados como inferiores pelos paladinos, mesmo que fossem melhores, eles não haviam vencido, então não eram dignos. Dizem que assim surgiu France Bruif, um dos Senhores da Escuridão, um renegado que serve o mal, e também o pior pesadelo dos Cinco Reinos. O que eles não sabem é que ele não venceu seus demônios, ele os amou, se aliou, e ao invés de rejeitar a escuridão ele a abraçou. E isso Cassio sabia bem o que era.
Retornaram a capela, e uma luz dourada tomava conta de todos. Novamente Mitra estava no altar, esperando os que sobreviveram.
- De agora em diante, não são mais cadetes, são os Paladinos Solares, os Campeões de Arian. Foram testados, medidos e por si só venceram as trevas e agora são os melhores dentre todos. O reino inteiro irá precisar de vocês, todos os reinos irão querer sua espada para defende-los. Nossas espadas mantém os Reinos Unidos, e assim sempre será. Pois o dia em que nossa fé acabar, o Sol deixará de brilhar. Nós somos a esperança do dia sempre vencer a noite, das serpentes serem dominadas, dos campos brotarem, da justiça ser feita. Orgulhem-se de si mesmos! Arian abençoe seus novos paladinos e meus novos irmãos!
Uma onda de emoção surgiu dentro do templo, a nave foi tomada por essa energia. Naquele momento todos foram tomados pela força de Arian, só que dessa vez não para o combate, mas para a cura, as feridas se fecharam, ossos colaram e os ânimos foram refeitos. Todos os novos irmãos da Ordem foram beijar a mão de Mitra, e um a um saíram para um merecido descanso, pois em breve ainda teriam um torneio para vencer.
Arthur não foi descansar, foi procurar Cassio, olhou em todos os lugares, carregava sua espada e nem mesmo lavou o rosto. Junto a ele estava Duvalik, passaram por todos os cantos. O anão reclamava o tempo todo.
- Nós devíamos esperar, ninguém sabe o que aconteceu, ou perguntamos para algum dos instrutores, agora somos todos irmãos, eles vão nos responder... melhor do que ficar andando de um lado para outro...
Arthur não dava ouvidos, continuou andando, seu pensamento estava em seu companheiro, passou por todos os lugares, cozinha, armeiro, estábulos. Não o encontrava em lugar nenhum, foi quando cruzou com Felipe, um dos seus antigos instrutores.
- Irmão, dê licença, não sabe onde se encontram os que não passaram nos testes?
- Se preocupa com quem? Se não venceu a Caverna ele não deve estar em seus pensamentos, não é seu irmão.
- Sim mas ele já foi, e foi um bom amigo, quero ver o que se fez dele, é o Cassio, de Doccar. Gostaria de ter com ele, e lhe falar algo.
- O doccariano está em repouso, e assim parece que deve ficar, os mestres cuidam dele, ele realmente possuía demônios ferozes para enfrentar. Não acredito que seja bom vê-lo.
- Nós insistimos – nesse momento Duvalik o olhou com reprovação.- Ele era um bom amigo, e talvez mereça nossas orações.
- Venham comigo.
Os dois seguiram Irmão Felipe, passaram por uma escada tortuosa da torre sul, e chegaram a um quarto. Era a sala dos Mestres de Palavius, o Deus da Medicina, os curandeiros e mestres de poções. Haviam várias camas ocupadas, e Cassio estava deitado mais próximo a parede sul. De olhos fechados, como em um sono tranquilo. Haris, era o Mestre que cuidava da sala, um homem de meia idade vestido com um manto vermelho escuro e opaco, em seu pescoço havia um cordão de ouro com uma verbena trabalhada ao centro. Verbena era o símbolo dos Mestres.
- Em que posso ajuda-lo Paladino Felipe?
- Meus irmãos aqui querem ver seu antigo companheiro, o doccariano.
- Ele está bem ali a frente. – os quatro se dirigiram para a cama – ele não acordou, foi encontrado pelos outros paladinos dentro da caverna. Há sinais de uma luta, mas ele está desacordado, como em um sono profundo.
Todos ali já haviam visto um homem desmaiar, pancadas na cabeça eram comuns durante os treinos. Mas todos sempre acordavam e ficavam bons após um tempo com os Mestres de Palavius. Suas poções e magias eram infalíveis, mas agora não pareciam tanto.
- Ele não vai acordar Mestre. – Arthur parecia ter um nó na garganta ao perguntar.
- Não sabemos, fizemos o que podemos. Ele não reagiu a nenhuma de nossas poções, muito menos as nossas magias, ele balbuciou algumas palavras, mas nada compreensível. Parece que ele está preso a um sonho.
Ali eles ficaram um tempo. E se foram.
Mais tarde em seus alojamentos, todos descansaram. E Arthur pensava em duas coisas: como ajudar Cassio e a luta contra os melhores do reino, desejando que seu irmão mais velho viesse competir, em seu coração ele sabia que só seria completo se derrotasse seu irmão. Essa sim seria sua última prova. E por um instante antes de dormir ele riu, havia vencido a vingança e a soberba, mas parece que não as havia abandonado.
Os dias se passaram, e todos se preparavam para o torneio. Os que não passaram pela Caverna agora eram serviçais dentro da Ordem, e após o torneio os que quisessem poderiam voltar para casa com sua vergonha. Provavelmente se transformariam em mercenários ou voltariam para suas cortes, o que para alguns seria doloroso demais. Todos os dias Arthur e Dovalik iam visitar Cassio, o anão não se demorava, ia mais como uma obrigação. Eram de espécies diferentes e com objetivos diferentes, mas ele nutria uma simpatia pelo doccariano, e também por Arthur, eles podiam não ser anões, mas tinham fibra. “Que maldição aconteceu com Cassio? Que demônios ele enfrentou para estar dormindo tanto tempo?” Aquilo martelava sua cabeça, e parecia fazer ele perder mais cabelo e crescer mais a barba. Apesar de sua raça ser conhecida pela engenhosidade e pelo raciocínio lógico apurado, tudo aquilo parecia um tanto quanto irreal para ele, e seu pensamento não alcançava. Somente os sábios da Cidade de Pedra poderiam responder, e não havia nada que eles não pudessem responder.
O dia do Torneio de Árian chegou. A comitiva de todos os reinos já haviam chegado. Minerva, Doccar, Lorel, Malta e Valkar. Os cinco reinos unidos, hoje liderados pelo Rei Marcus, A Mão de Ferro, Senhor do Reino de Lorel. Princesa Sophia, representando seu pai, por Minerva, e suas chamas. Rei Aleon do Reno de Doccar, com seus estandartes com imagens de cavalos. Rei Dionísio, com suas videiras pintadas, representando Malta. E por último Rei Dacio, de Valkar, com um estandarte negro com uma espada branca no meio. Os anões não iriam, eles nunca vão, estão ocupados demais para se envolverem nos assuntos dos homens, e suas terras ficam muito longe dos Cinco Reinos, apesar de serem conhecidos como o Sexto Reino. A relação entre eles e os homens é diplomática e amigável, mas não é muito comum vê-los andando pelas ruas das cidades.
Uma enorme arena havia sido montada no pátio. Cinco tronos ornamentados, sendo o do meio mais elevado. Uma arquibancada que envolvia a todos. Somente nobres e membros da corte, quanto mais nobre mais próximo aos reis e rainha. Duques, Arquiduques e Condes. Todos trazendo seus campeões, os Cavaleiros, filhos ou protegidos de nobres, que ganharam a honraria de cavaleiro e chefiam exércitos em nome de seus senhores. O torneio era amigável, duas disputas, um jogo de justas, e um duelo de espadas, para demonstrar o nível de habilidade dos Paladinos, e para que os Reis escolhessem seus defensores e avaliassem seus cavaleiros.
Novamente era Mitra que estava a frente de seus homens, todos com suas armaduras douradas e suas armas, cobertos por suas capas brancas de bordas douradas.
- Com a benção de Arian, e com a permissão dos Cinco Reis, eu apresento os nossos novos Irmãos, todos treinados e formados nessa casa, e passaram duras penas para chegarem onde estão. Eu vos apresento a elite dos guerreiros dos Cinco Reinos!
Aplausos tomaram toda a plateia. Arthur de longe viu seu pai, e ao lado dele suas irmãs, como elas haviam crescido. Ana a mais velha já era uma mulher, e seus pais já deviam estar arranjando um casamento promissor para ela. Passou o olho por todos. E parou na Princesa Sophia, jovem e bela, com uma aparência virginal, parecia uma mensageira dos deuses. Seus cabelos ondulados e loiros, em um vestido de veludo azul, todo adornado de cobre e prata. A tiara que usava se tornava um mero enfeite perante sua beleza. E realmente deviam ser verdade os boatos que o Rei estava doente, pois sua única filha o representava.
O primeiro jogo de justas começou. Um cavaleiro de Valkar contra Tomas, no som da trombeta os dois cavaleiros, portando suas lanças partiam a galope um contra o outro. No primeiro choque os dois baquearam, mas não caíram. Demorou três embates para que o valkariano caísse de seu cavalo.
Mas o jogo de justas não importava muito para Arthur, nem para Dovalik eles esperavam os duelos. Esse sim era a prova deles. Dois oponentes se enfrentando na arena, armados sobre suas montadas iriam lutar até que o primeiro gritasse misericórdia e saísse da arena, e Arthur sabia que seu irmão estaria entre eles, sabia que ele iria enfrenta-lo, ele nem precisava trapacear o sorteio, se nada tivesse mudado, seu irmão já teria feito isso.
A espera não demorou, no final da tarde os duelos começariam. O primeiro foi Dovalik, que enfrentou um cavaleiro do reino de Minerva. Apesar de um pouco desengonçado em cima de seu corcel, Dovalik era muito bom com a lança, e sabia usar muito bem o controle sobre a terra combinado com a Força de Arian, o que lhe rendeu vantagem e fez o pobre cavaleiro gritar por misericórdia e sair correndo da arena. O anão gargalhou, saindo sob aplausos e gritos de viva!
Mais cinco embates aconteceram. E em nenhum um paladino pensou em pedir misericórdia. Teodoro, um dos paladinos quase foi derrotado, mas conseguiu fazer valer seu título, e em um ataque desesperado derrotou o valkariano que lhe infligiu bons cortes no corpo e destruiu seu escudo.
- Paladino Arthur contra Deodoro, o Prateado, representando o reino de Lorel pelo ducado de Arge.
Arthur entrou na arena, confiante, ele havia derrotado um warg e uma hidra, seu irmão seria fácil. Entrou do outro lado um cavaleiro em um ginete baio, com uma armadura impecavelmente prateada, as coisas mudaram, seu irmão mais velho parecia mais forte, em sua mão esquerda havia um escudo, com uma pequena montanha brilhante desenhada, símbolo de sua casa, e a espada longa que portava era ameaçadora, era curva, cheia de entalhes, feita para decapitar enquanto montado. O elmo estava aberto, o rosto era inconfundível, e o olhar sarcástico não havia mudado. Deodoro sempre desprezou Arthur, e por muitas vezes o humilhava para ser destacado frente ao seu pai. Lembrava-se do dia em que foi deixado no Templo, as palavras de seu irmão: “Não vá envergonhar nossa casa.” Péssima escolha de palavras.
Os dois trotaram até o meio da pista, cumprimentaram o Rei Marcus e o Paladino Mitra. Se olharam.
- Faz muito tempo maninho... Quem diria que o pequeno Arthur iria chegar a ser um paladino.
- Meus irmãos vestem dourado.
E assim se puseram em suas posições, distantes dois metros um do outro, colocaram seus elmos e ouviram a corneta. Antes que Arthur fizesse algo Deodoro partiu sobre ele, dois golpes altos sobre o escudo dourado. Ele tocou seu cavalo para esquerda e tentou estocar o irmão mais velho, o golpe bateu no peitoral da armadura, mas quase desequilibrou Deodoro.
Durante três minutos trocaram golpes a cavalo, até que o prateado acertou o elmo de Arthur, o zunido foi forte, ele desequilibrou, caiu por cima de seu escudo sujando toda armadura. Levantou-se tonto, via dois cavalos baios. Deodoro não deixou por menos, e de cima atacou mais duas vezes, a primeira acertou novamente o elmo, e a segunda foi parada pela espada do paladino. Sem pensar no que fazia ele golpeou a perna do irmão com a beira do escudo, a dor foi grande, e um estalo foi ouvido. Deodoro caiu, e honradamente Arthur esperou que ele levanta-se.
Os dois se olharam por um tempo. Esperando um movimento. Arthur sentia que pouco havia mudado, seu irmão era ansioso, arrogante iria querer se mostrar para alguma donzela das cortes. E ele estava certo, quase nada havia mudado, mesmo mancando o Cavaleiro Prateado atacou com sua espada, e todos os golpes foram bloqueados pelo escudo e espada longa. Arthur começou a sentir o Poder de Ariam tomar seu corpo, aguardou defendendo mais um golpe, só que não percebeu que o fraco ataque era uma finta, com um giro de corpo seu elmo novamente foi atingido, e arremessado para longe durante sua queda.
Na plateia já estavam comentando, “Eles vão se matar.” , “Alguém tem de parar essa loucura.”.
Deodoro tentou caminhar sem mancar, quase conseguiu, e ao chegar perto de seu oponente, o viu girar para a direita e levantar como um gato, os olhos dele estavam amarelos, e a espada tinha um leve brilho na mesma cor. Ele conhecia aquilo, era a Força de Arian, o poder de um deus dado aos paladinos dedicados. Então ele começou a temer.
Arthur soltou o escudo, o barulho seco foi ouvido, girou sua espada e pôs-se em guarda. Esperou muito pouco. Deodoro tentou um ataque pela direita desprotegida, e isso foi seu erro, em um giro rápido seguindo o movimento da espada oponente, Arthur atingiu ele no ombro, fazendo a armadura amassar e a espada cair. Seu segundo movimento foi contra a perna direita, e mais um estalo.
- Misericórdia!!!
Arthur parou atrás de seu irmão, que caído de joelhos, se rendendo ao paladino que estava as suas costas.
O vitorioso levantou os braços, e se retirou, deixando humilhado o seu antigo inimigo. Já não importava mais para onde ele ia, qual reino iria defender. Ele era um Paladino e naquele momento havia terminado sua última prova. E vencido tudo, podia servir somente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário