domingo, 6 de janeiro de 2013

Segundo Conto: ASSASSINA

A figura sentada no fundo da sala era o centro das atenções, um homem enorme, vestido de seda dourada, sobre almofadas de veludo. Ele parecia ser tão grande que tomava todo o amplo salão, que também era coberto de sedas e mais pessoas bizarras. Era Jimal, o maior comerciante da cidade de Sindorin, a metrópole do comércio. Distante o suficiente dos Cinco Reinos para não ser afetada por suas leis e perto o suficiente para fazer conseguir o seu ouro. E o que tinha de obeso, Jimal tinha de ardiloso e dedicado, seda, navios, especiarias do deserto, armas anãs, animais especiais, escravos, e escravas para todos os fins. Não havia nenhum ramo que ele não tocasse. E aquele era seu salão, dentro do seu palacete em Sindorin, ali estavam todos os seus bajuladores, viventes de favores que a amizade e servidão à Jimal traziam. Mulheres e homens dançando nus, ou cobertos por uma tinta dourada, a grande maioria entorpecido por ópio e haxixe. Aquele local tinha o nome certo: Palácio dos Prazeres. E para Jimal aquilo era o certo, Sindorin era a cidade do pecado, onde o ouro pode tudo comprar, lar das guildas e confrarias de comércio e seus bandidos, o melhor lugar, onde ele poderia resolver todos os seus problemas, pois ouro e prata não eram poucos em seus cofres.
- Senhor, temos uma reunião agora.
Jimal virou a cabeça e viu Aluh, um de seus eunucos favoritos, tão lindo e virginal. E se lembrou de um compromisso, uma negociação a ser feita, bateu palmas, todos se viraram para ele, a música parou.
- Continuem sem mim. Terei de deixar os prazeres um pouco.
Quatro de seus mais fortes eunucos o carregaram em sua plataforma até uma sala, de pesada porta e o colocaram em frente a uma mesa de rara madeira vermelha. A sala novamente era cheia de ouro e seda, porém tinha um ar pesado, fazia muito tempo que a única luz brilhante era a de candelabros com azeite e gordura de baleia.
- Mande-a entrar Aluh.
O eunuco saiu e voltou com uma mulher magra, vestida de couro negro, em seu corpo haviam muitas facas e punhais presos. E seu cabelo negro curto e liso combinava com seu rosto moreno de traços do deserto.
- Então você e enviada dos Hashem... Por acaso tem um nome minha menina?
A sala era grande, ela demorou mais que gostaria para chegar até a mesa. E suas palavras não eram acompanhadas de nenhuma expressão.
- Pode me chamar de Zaira.
- Minha menina, você talvez tenha algo que eu precise, um conjunto de habilidades que talvez eu e minha confraria possamos utilizar. – Jimal gesticulava tentando parecer poético, mas aos olhos de Zaira ele parecia um afeminado ridículo mostrando uma inchada mão cheia de anéis.
- Se puder pagar pelos meus serviços, tenha certeza que minhas habilidades estarão a seu favor. Mas tudo têm condições.
- Basta dizer, minha menina.
- Primeiro eu não sou uma menina, eu sou uma Hashem. Segundo você pagará o serviço a alguém que virá lhe cobrar depois, e o preço ainda é o mesmo, o peso da cabeça cortada em ouro. E nunca fale sobre o acordo com ninguém e somente contratará meus serviços uma vez. Nenhum homem é sortudo o suficiente para ter um Hashem à seu serviço mais de uma vez.
- Talvez eu tenha essa sorte. Eu quis negociar pessoalmente, pois o seu serviço é delicado. E eu acredito que sua eficiência poderá manter as coisas em Sindarin na mais perfeita ordem.
Todo aquele rodeio deixava Zaira enjoada. Ela era uma assassina e não uma comerciante, muito menos uma política gorda e enfadonha. Na verdade ela matava políticos gordos e prolixos. Era essa sua profissão, sua sina, desde criança criada pelos assassinos para ser igual eles, podia matar qualquer coisa, qualquer um.
- E qual é o serviço delicado?
- Eu quero a cabeça de Abul Hazzed...
Zaira pensou que tinha ouvido errado, por um segundo sua confiança vacilou.
- ... faz um tempo que o chacal maldito está atrapalhando meus “negócios”. E eu quero muito que ele deixe meu caminho e seja feliz no Abismo das Almas Impuras. Que mil demônios o enrabem!!! – e cuspiu em uma tigela de prata.
- Como eu disse: alguém irá lhe procurar e cobrar o preso da cabeça, em ouro puro.
- Então nosso acordo está selado menina, uma pena eu não poder fornecer mais informações, sabe como os chacais são, vivem escondidos.
- Considere feito!
E com raiva ela saiu, mas sem expressar nem uma emoção durante o processo. Jimal ficou observando as formas da assassina, pensou consigo mesmo que aquilo já lhe deu prazer.
Zaira saiu do Palácio dos Pecados e logo se juntou as sombras, e ninguém vê um assassino nas sombras. E sozinha pensou em sua missão. Abul Hazzed, chefe dos Chacais, um grupo de traficantes de escravos, descendentes de uma tribo de senhores do deserto, ele e sua guilda eram um perigo a todos. Mas não importava, os assassinos sempre tem um plano e um prazo, no caso dela eram sete noites, e a primeira estava chegando.
Ela cruzou toda a cidade pelas sombras, foi para o Buraco, o bairro dos mendigos, ladrões baixos e desfavorecidos. Tinha esse nome, pois literalmente era um buraco cavado nas pedras vermelhas, e as tocas cravadas na rocha eram casas, ou qualquer coisa parecida com isso. Um lugar quente e abafado, lar da desgraça e desespero. Havia uma lenda que dizia que antes era o lar de anões, antes do êxodo para as terras geladas. E era nesse local fétido e mal iluminado que ela se escondia, passou por muitos: vendedores de bugigangas, jogadores, tabernas sujas e prostíbulos que exalavam doença. Realmente era um local sujo e incestuoso, até os ratos eram deformados.
A toca dela era diferente, uma das poucas com porta. Ela se abaixou e tocou uma moeda de cobre no chão, era um instrumento de proteção, mágica básica de um assassino. Entrou em um quarto que mais parecia uma bola de ar dentro da pedra vermelha. Sem janelas, com uma cama e uma caixa de madeira. Ascendeu uma vela, tirou as roupas e se desarmou. Seu corpo era forte e esguio, tinha pequenos seios rosados, sentou-se na cama, e começou a contemplar a vela. Em um primeiro instante seus pensamentos eram confusos, vinham empilhados um sobre o outro, sem nenhuma conexão, depois de um tempo foram sumindo, tornando-se escassos, até que somente um sobrou. O assassinato de Abul Hazzed, e logo depois até ele sumiu, sua mente estava vazia, só havia ela e a vela, mais nada. Foi quando teve a inspiração, descobriu o plano que seguiria, um insight, uma luz vinda da vela e do domínio de sua mente, então acordou. Nua e suada, mas com um plano traçado e muito bem planejado. Dentro das cavernas o tempo sumia, mas ela sabia que haviam se passado muitas horas em seu transe.
Depois de se secar vestiu novamente as roupas, pôs uma capa com um capuz, algo para cobrir suas facas, adagas e punhais. Abriu o baú, pegou um saco de couro amarelo. Saiu, fechou a porta.
- Akh Somedah – tocou a moeda e uma luz vermelha brilhou em volta da frágil porta de vermelha.
Juntou-se novamente às sombras, e sem ser percebida procurava um homem, um informante em especial. Buscou entre os viciados e ladrões, entrou em prostíbulos baratos que exalavam sífilis, em uma taberna suja no canto mais fundo do buraco, olhou e viu Peter, um jovem magro e envelhecido pela vida desregrada que levava. Saindo das sombras se sentou em frente a Piter. Um susto tomou o jovem, fazendo-o derramar toda a cerveja suja que bebia.
- Que merda Julia! Isso custa dinheiro sabia?
- O que houve que não está se drogando em um puteiro? Qual e o nome da sua favorita mesmo, Katy, Kella, você sabe qual, aquela da verruga no rosto?
- Que mil camelos te estuprem! O que você quer? Fala logo... – a confiança dele começava a se esvair, e sempre era assim, em pouco tempo ele estaria gaguejando e molhando as calças. Piter sempre foi um covarde, e isso lhe manteve vivo e drogado o suficiente durante muitos anos.
- Tenho um presente para você Piter, basta você me tratar direito e atender meu pedido.
Zaira põe a bolsa na mesa e Piter não acredita no que vê dentro, um pó amarelo opaco.
- Isso é... é....
- Mazzak, o pó das fadas. Sei que você daria a vida por um pouco e eu estou lhe dando meia pata dele, você pode se drogar por muito tempo, ou se for esperto fazer algum dinheiro.
- Eu sei que vou me arrepender, mas o que você quer?
- Preciso encontrar alguém que conheça os Chacais, ou um deles.
O coração de Piter gelou, parecia que uma adaga de gelo tinha atingido seu peito. Ele se demorou, olhou para Zaira, olhou para o pó, pensou milhões de coisas desconexas.
- Que minha alma vá para o abismo! Julia isso é coisa de louco, ninguém rouba dos chacais, você deve estar usando muito desse pó, ou coisa pior!
- Quem disse que vou roubar algo. Eu quero me juntar a eles, sair desse buraco, fala logo ou eu passo essa maravilha ai para outro.
- Você mal chegou aqui... E eu não quero saber. Os chacais estão em todos os lugares, você vai reconhecer um por uma marca na nuca, a letra kesh do alfabeto do deserto. E eu sei que eles gostam das putas mais caras, e de esbanjar o dinheiro que tem da guilda. E de dar seus inimigos para os chacais devorarem. Nã... Nã... Não é muiiiiitto eessspperrrrto...
- Eu sei Piter, respire fundo e me diga algo que eu não saiba.
Ele não olhava no olho de Zaira, o que dificultava o uso da hipnose, ele estava começando a gaguejar. Para sorte ele respirou fundo.
- Lugus, é o nome que você procura. Um feii... feiticeiro, que tem nome dentro dos chacais. Ele leva garotas daqui para um puteiro em... na cidade. É tudo que ssseeeiii...
- Obrigada, não use tudo de uma vez, vai te matar. E tente vender algo.
Ela saiu, esperou ninguém ver e novamente se juntou as sombras. Naquela noite Piter morreria, ela sabia demais sobre Zaira, e sobre tudo. E por qualquer quantia venderia a informação de que ela estava procurando pelos chacais, sabendo disso misturou lótus negra ao pó das fadas, ele morreria de hemorragia hepática na primeira dose do alucinógeno. Não antes de vender um pouco para alguns viciados. “E limparás o mundo de seu mal.”
Agora estava à procura de uma marca na nuca, ou de um nome. E isso era fácil, pelas sombras ela foi até o prostíbulo menos ruim do buraco. Ficou um tempo parada nas sombras, observou. Escutou o que falavam. E no meio do salão cravado na pedra viu uma menina seminua sentada. Ela era muito jovem, nem tanto para os padrões do buraco ou da cidade pecaminosa em que estava, acompanhada de um homem magro e careca, seu cavanhaque era longo, indo até o fim do pescoço, estava vestido com panos verdes e negros, e suas unhas eram grandes e amareladas. “Típico feiticeiro, agora só preciso ver a marca.” Ela esperou, e viu, era a letra kesh na base do crânio. Acertou, já sabia quem perseguir.
Ele realmente traficava garotas do buraco para um puteiro em Sindarin, o seguiu, saindo do Buraco ele montou em um cavalo seguindo vagarosamente com a garota em sua garupa, vez por outra ele a tocava.
Pelas sombras, pelo alto das árvores e depois pelos telhados retos de Sindarin, a assassina seguiu seu alvo. Seu olhar era vidrado como uma águia olhando uma presa. Em seu caminho passou por todo tipo de coisa. Mercadores gritando, homens roubando, prostitutas se oferecendo em janelas, crianças roubando com suas mãos leves, um homem negro possuía uma jovem em um beco, e os gemidos dela fizeram o feiticeiro gargalhar.
Jade era o nome do prostíbulo, em um prédio de pedra vermelha, como tudo em volta, colorido por panos amarelos e desenhos de homens e mulheres fazendo as mais variadas poses. Ela não podia entrar com as roupas que estava, teria de se disfarçar. Lembrou da jovem sendo possuída pelo negro no beco. Voltou e encontrou-os urrando de prazer, desceu sem fazer barulho, e antes que percebessem cortou suas gargantas, eles caíram sem perceber. Vestiu a roupa da menina, rasgou alguns panos, agora ela estava com uma prostituta. Enrolou suas roupas na capa, e carregou até próximo do prédio onde escondeu. Entrou e fez o que foi treinada, se misturou as outras, fez parecer como se ela fosse mais uma. Risos, gritos, piadas e uma irritante música de fundo. Procurou Lugus, o encontrou recebendo um saco de dinheiro de uma mulher já velha, coberta de panos dourados, e recebendo a jovem que o feiticeiro entregou. Era a oportunidade esperada, desviou de todas as mão e bocas que tocavam e chegou ao seu alvo, o tocou suavemente, bastou o olhar dele para seu encantamento funcionar.
- Venha comigo...
O puxou pelo braço para os andares de cima, e ele foi como um cão seguindo carne fresca. A roupa que ela improvisou valorizava suas curvas, deixava um dos pequenos seios rosados a mostra. “ Feiticeiro de mentira.” Entrou no primeiro quarto que viu vazio, jogou Lugus na cama, montou sobre ele e sem perder o olhar perguntou: - Conte-me como encontrar Abul Hazed.
- Basta ficar de quatro vadia!
Com um gesto de mão arremessou a assassina contra porta, gerando um som oco e seco.
-Uhh...
- Achava mesmo que eu sucumbiria a um encantamento de uma assassina. Sua magia é pífia.
Ela não tinha muito tempo, aproveitou que estava caída e sacou um de seus punhais escondidos, ao levantar o arremessou, e antes de acertar seu alvo parou no ar e caiu. Era o que ela queria, com um salto atingiu as costas dele e aplicou um mata leão, apertando com toda a força que tinha. Ele tentou, mas foi sufocado até o desmaio.
Quando acordou estava com as mãos amarradas, preso em uma cadeira velha, ela sentada na sua frente.
- Nem tente lançar nenhum feitiço, antes que termine as palavras esse punhal irá atravessar sua garganta, ou algo que dê mais valor. Sei que um feiticeiro sem mãos e boca não vai ser muito útil.
Lugus pensou, mas a sua mente estava confusa, só pensava em Abul Hazed.
- O que você fez vadia?
- O nome é Abrad Lir, ou Lírio Dourado. Misturado na medida certa serve para extrair a verdade de qualquer um. O problema e que se eu não lhe der esse outro vidrinho aqui, você vai morrer delirando com seu pior pesadelo. Agora fale sobre seu chefe.
A tentativa de resistência era inútil, sua mente estava tomada, iniciando o delírio, ele sabia que era verdade, em alguns minutos entraria em um pesadelo mortal. Resolveu falar, enquanto tentava uma maneira de fugir, o problema é que mentir não era uma opção. Então omitiria, se não falasse nada não era mentira.
- Ele comanda os chacais em um local escondido, nas docas e vive cercado de guardas, você nunca vai mata-lo.
- Isso e comigo. Eu quero saber tudo sobre ele.
- Ele possui uma magia poderosa, vinda de um amuleto que ganhou de um paladino renegado e um acordo com Rustalar...
- Rustalar o mago?
- Claro que sim estúpida. E ele sai todos os dias, para negociar com alguém dos nômades, não sei o motivo, mas ele os teme, e o rei deles é ruim de negócio.
- E o que o amuleto e o acordo trazem para Abul?
- O acordo eu não sei, mas o amuleto o torna imune a armas de metal.
O olhar de Lugus começou a se perder, a partir desse ponto, o delírio era inevitável.
- Obrigada Lugus.
Ela golpeou o crânio dele com o punho e o apagou, ele podia ficar tranquilo, não acordaria para falar com ninguém. E ela ia precisar de estacas de madeira e uma faca de pedra.
Voltou ao buraco para descansar, a noite já estava acabando, dormiu como uma pedra, até o calor insuportável do buraco desperta-la. E se vestiu novamente saindo junto às sombras, queria observar.
Passou novamente pelas ruas imundas de Sindorin, muitas coisas eram nojentas, via-se de tudo, vendia-se de tudo, homens, mulheres, eunucos, afeminados, relíquias religiosas. Brigas e fornicação eram normais, e ela dentro das sombras era alheia a tudo isso, ninguém podia vê-la, mesmo de dia, era bem treinada para saber escolher seus caminhos.
Depois de algumas horas chegou até o bairro dos nômades, eram os Eremitas, um povo errante que se movia em todos os cantos do mundo, ninguém tinha coragem para enfrenta-los, um monte de lendas e avisos acompanhavam esse povo. Viviam de seu comércio lucrativo, levar especiarias de um canto ao outro, de escoltar valores e pessoas através do deserto ou dos mares. Seu bairro em Sindorin era repleto de tendas coloridas, música e fogueiras. Homens cuidando de seus negócios e mulheres cuidando de suas famílias. Eram um toque de alegria dentro da cidade suja. E nesse bairro alegre, quase no limite dele uma construção se erguia, quase como uma cicatriz em um campo vermelho, uma torre branca, com poucas janelas, um monólito em homenagem a algum deus esquecido. Ela subiu um terço da torre e ficou observando todo o movimento, esperou. Tinha de ser atenta, os eremitas se vestiam como queriam, sempre com cores vivas, sempre com uma adaga na cintura, e seu rei não teria nenhum adorno que o identificasse assim, pois dentro da cultura deles um homem é reconhecido por seus feitos e palavras, e o direito de ser rei é conquistado e não recebido por uma linhagem de sangue. Ela conhecia o Rei Eremita, Hermes, esteve com ele em outra cidade em outros tempos, e não foi tão agradável. O Rei foi avistado em um canto do acampamento, estava sentado conversando com outros de seu povo, da distância que estava ela não poderia ouvir, somente ver, não era muito sábio entrar no acampamento utilizando qualquer técnica mágica, a maior fama deles era a facilidade mágica, então ela iria se contentar em ficar longe.
Sentado em uma pedra vermelha Hermes conversava com seu povo, ria, gesticulava, gritava, resolvia alguns dos problemas de seu povo. E foi tudo que Zaira observou durante muito tempo, quando a noite iniciou viu dez homens vestidos de vermelho e cinza entrarem no acampamento, o tempo todo ela utilizava uma pequena luneta para observar. Dez homens, todos carecas, vestidos de cores parecidas e nove deles estavam em volta de um só, se não fosse Abul Hazed seria alguma outra guilda. Da distância que se encontrava via uma cena no mínimo intrigante, quando os grupos se encontraram os nômades se afastaram de seu rei, se colocando de frente para os visitantes. De longe dava para ver a atitude hostil dos grupos, todo o bairro eremita pareceu ficar em alerta, fingiam estar fazendo algo, porém estavam atentos ao menor sinal de hostilidade. A conversa se demorou, o rei parou sua atitude expansiva, a conversa se resumiu a alguns gestos, e os guardas se mantiveram imóveis.
Quando deixou o bairro os membros da guilda não pareciam felizes, e Zaira resolveu segui-los pelas sombras, desceu da torre sem ser vista e continuou seguindo, chegou perto o suficiente para ver a tatuagem na nuca. Tinha acertado! Eram eles, e em breve ela poderia terminar sua missão e retornar para a Mansão Hashem, junto aos outros de seu clã. “Sua casa é com os seus.”
Novamente ela passou pelas sombras, dessa vez muito mais fácil, a noite já estava reinando sobre a cidade, os seguiu até as docas, um local tão sujo quanto o resto da cidade, e era aqui que grande parte da sujeira começava, os contrabandos, escravos, entorpecentes, prostitutas, tudo passava pelas docas. Tudo vinha e ia e vinha pelas docas, o coração pulsante de Sindorin. Em um dos estaleiros havia uma passagem, uma porta disfarçada e ignorada por todos que ali passavam, ao olhar a porta Zaira notou um feitiço de disfarce, era simples demais, todos que passavam simplesmente ignoravam que ali havia uma porta de ferro negro e enferrujado.
Esperou todos entrarem, estudou minuciosamente em busca de algum perigo, e excluindo o guarda que certamente não a veria ela podia passar sem maiores perigos. Do lado de fora criou uma distração, usou sua magia e o guarda ouviu uma discussão, ao sair para ver o que havia ela entrou. Passou por um corredor mal iluminado , seguia reto e descendo levemente até ficar novamente plano. Parou em um salão amplo e quadrado, os membros da guilda estavam festejando com algumas mulheres drogadas, ninguém prestava atenção nela, escolheu o canto mais escuro e lá parou, procurou seu alvo e o viu bebendo e comemorando com duas mulheres nuas em seu colo. O barulho chegava e a bebedeira facilitava enormemente o trabalho da assassina. Bastava esperar. Lembrou-se de um dos seus maiores ensinamentos: “Inteligência e paciência são as duas maiores armas.” Essa não era sua primeira missão, mas com certeza estava sendo a mais exigente de sua paciência. Esperou muito tempo, até que a maioria se recolheu para algum dos aposentos, outros caíram na própria mesa ou no chão mergulhados em vômito. Abul levou duas de suas mulheres para um quarto, Zaira o seguiu passou pela porta sem nenhuma dificuldade, a porta eram lenços vermelhos. Escondeu - se novamente, e esperou os três se esbaldarem em mais drogas e sexo.
Quando dormiram Zaira selecionou um de seus punhais, um tão fino quanto um graveto, silenciosamente cravou no ouvido das duas mulheres. Sem reação, morreram instantaneamente. Para Abul ela tinha planos melhores, de sua pequena bolsa retirou um frasco com um liquido amarelo, uma mistura fina e de difícil preparo. “Vamos ver se ele também é imune a veneno.” Duas gotas derramadas na boca do homem nu deitado.
A assassina sentou seu alvo em uma cadeira, espetou duas varetas de madeira, uma perto do coração e outra perto da braquial. Deixou que sangrasse, o sangue estava escuro, um rubro quase negro. Aos poucos ele acordou, quando viu sua situação ficou desesperado, de sua garganta não saía mais que um sussurro, não podia se mover, não movia nada, o pouco movimento que fazia para sussurrar era uma agonia.
- Eu te dei uma mistura rara de venenos, dentro dele tem o veneno do escorpião amarelo. Mesmo que queira não conseguirá nada mais que um sussurro, e o que te mantém vivo são as duas varas que permitem que seu sangue sujo saia.
Ele tentou falar algo.
- Não se esforce, eu só quero duas coisas: seu amuleto e como encontrar Rustalar. E se não quiser me dizer, essa faca de mármore vai conhecer seu coração.
De novo ele tentou reagir, mas a dor foi mais lacerante, parecia que seu peito ia explodir.
- Quanto mais você reagir, mais rápido o sangue corre e mais difícil fica de te salvar.
Zaira percebeu que o torturado não sabia ao certo o que ela era, tirava vantagem disso, ele podia se agarrar a um fio de esperança e se manter vivo. E isso aconteceu, ele com muito esforço sussurrou:
- Anel... negro...
Ela viu um anel negro em sua mão esquerda, e o puxou. E para ter certeza cravou uma adaga de metal no braço dele. A dor foi aguda, agravada pelo fato dele não poder gritar.
- Eu não fiz só uma pergunta. Como encontro Rustalar?
- Al...Ka...Lif...
Ela conhecia o lugar, uma região do deserto, entre montanhas escarpadas de pedras pontudas e beges, um bom lugar para se esconder, mas péssimo para chegar. Confiou no desespero do homem, e com sua maior faca cortou sua cabeça com uns dez golpes. Enrolou em um lençol e saiu sorrateira. Agora entregaria a cabeça ao Cobrador, e ele visitaria Jimal exigindo o preço combinado. E isso funciona séculos, pois ninguém ousa desafiar os Hashem.
Ninguém.
“Limparás o mundo se sua sujeira,
Pelas sombras irá se mover, mudando a história,
Suas lâminas trarão o equilíbrio,
Inteligência e paciência serão suas maiores armas,
Entre os seus será seu descanso, sua casa é com os seus,
E rios de sangue derramarás,
Trazendo o equilíbrio,
A história é muito lenta para ser feita por si só.”

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